segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Magia



Eu já fui uma criança inocente como qualquer outra. Como todos já foram. Como você que lê isso já foi.
Eu acreditava em Papai Noel. Acreditava em seres mágicos como as fadas, bruxas, vampiros e duendes das histórias que eu lia. Eu acreditava que as nuvens eram feitas de algodão e que o arco-íris era a visão mais incrível de todas e que, no final dele, havia um enorme tesouro esperando para ser encontrado por quem fosse corajoso o suficiente para ir à sua procura.
Eu acreditava em um bicho-papão que se escondia no meu armário, ou em baixo da minha cama e que, quando eu fosse desobediente, ele iria me pegar e levar para longe da minha mãe e do meu pai.
Eu brincava, eu ria, eu corria, caia e ralava o joelho. Depois, ia correndo para o colo da minha mãe que fazia um curativo e dizia que iria dar um “beijinho pro dodói sarar mais rápido”.
E com minha inocência infantil, meus medos bobos e meu riso alegre, eu fui uma criança feliz.
Mas eu tive de crescer. E então um véu negro se estendeu diante dos meus olhos. Um véu que destruiu meus sonhos de criança e começou a dar as tais “explicações lógicas” para tudo que eu acreditava, matando meu universo de fantasia.
E então as nuvens já não apreciam tão puras, o arco-íris deixou de ser algo fascinante, os seres da minha imaginação foram sendo esquecidos e novos bichos-papões começaram a me assustar.
A solidão, a rejeição, a confusão dos meus pensamentos com relação ao mundo ao meu redor me assustavam mais do que qualquer monstro que pudesse estar em baixo da minha cama enquanto eu dormia.
Esse véu negro tinha um nome: realidade. A dura e esmagadora realidade de um mundo frio e injusto no qual você é apenas mais uma pessoa em meio a milhares de outras que também foram obrigadas a parar de sonhar e fantasiar. Afinal, as contas chegam todo mês e é preciso pagá-las, com ou sem pote de ouro no fim do arco-íris.
Nós já não somos mais crianças e o mundo nos cobra responsabilidade, nos cobra atitudes e maturidade. Entretanto, não precisamos nos tornar adultos sérios e zangados demais como os vilões dos contos que líamos na infância. Nós podemos rasgar esse véu negro e começar e sonhar com um mundo melhor. Um mundo solidário, humilde, cheio de amor e felicidade como as crianças que nós fomos.
E melhor do que sonhar, nós podemos fazer! Podemos tornar isso possível, uma vez que todos cresçam e se tornem adultos de bem, sem esquecer da pureza do coração de uma criança.
O mundo não deixou de ser incrível e fascinante. Assim como o fato de observar um arco de sete cores no céu depois da chuva te fazia sorrir e te deixava feliz, é preciso admirar e dar valor às pequenas coisas que a vida nos proporciona. Essas pequenas coisas que temos todos os dias, de graça e que são capazes de fazer com que o nosso mundo volte a ser mágico.

Sol da Meia-Noite



Cercada de vida por todos os lados
E com uma porção de morte me pesando nos ombros
Não, não há culpa em minha alma
E sim, apenas uma herança maldita correndo em minhas veias
Meu sangue, meu antepassados
Quase posso vê-los dançando na brisa do verão
Sendo iluminados pela chama fria do sol da meia-noite
O brilho azul celeste de suas almas purificadas
E o mundo para enquanto me junto a eles
Por alguns momentos, lágrimas e saudade deixam de existir
E enquanto estou lá, observo a minha própria imagem
Como em um espelho que reflete a alma
Como uma enorme sombra pesando aos ombros
Alguém que nasceu marcada
E à minha frente, passado e futuro se entrelaçam
Se encontram, se abraçam em uma teia de confusões
Chegada a hora, sem qualquer chance de resignação
O azul-celeste vai ficando mais turvo
E mais...
E a brisa de verão sopra mais lentamente
E mais...
E a escuridão vem apagar qualquer vestígio desse devaneio
Um sopro, um suspiro, um sonho!
Um fio de suor, a respiração pesada
E uma voz de algum antepassado sussurrava:
“Vá, e eternize esse momento.”

Minha Razão



Eu, justo eu, que me julgava indiferente a tudo
Me vejo agora completamente apaixonada
Antes eu preferia ficar no silêncio
Agora, me encanto com o som de sua risada

Eu que rejeitava qualquer tipo de afeto
Agora desejo constantemente o seu abraço
Antes, preferindo sentir o frio da distância
Agora só desejando sentir o calor de seus braços

E de tão acostumada que estava à solidão
Recusando toda e qualquer companhia
Agora me vejo desejando estar ao seu lado
Sentindo seu perfume, observando seu sorriso, compartilhando a sua alegria

E enquanto a raiva e a depressão me consumiam
Aos poucos definhando a minha alma
Você surgiu com seu jeito encantador
Me trazendo serenidade, me devolvendo a calma

E o meu coração partido e cansado
Exausto de luta, de tanto sofrer
Tem um novo e belo motivo pra continuar batendo
E esse motivo, meu amor, é você

sábado, 19 de janeiro de 2013

Eclipse



 
Certa vez, a Lua apaixonou-se pelo Sol. Dentre todos os corpos celestes no universo, para ela, nenhum possuía um brilho tão resplandecente e uma energia e luz tão ofuscantes.
 A pequena Lua, do contrário, não possuía sua luz própria. Costumava viver solitária na escuridão, apenas alimentando seus próprios fantasmas do passado, implorando em seus pensamentos que alguém a salvasse de tais.
 E então o amor floresceu nela. Diante do brilho do majestoso Sol, ela também parecia iluminar-se. O Sol, com seu calor aconchegante, envolvendo facilmente todos á sua órbita. A Lua, refletindo tal luminosidade em forma de uma tez pálida, emitindo fracos raios brancos, puros e serenos condizentes com seu amor pelo astro rei.
 Porém no amor, nem tudo são flores.
 O Sol estava sempre centrado em si próprio, sempre no mesmo local, parecendo sequer notar a existência da pequena Lua. Parecia inalcançável para ela. Parecia muita ousadia da parte da Lua desejar algo tão magnífico quanto o Sol.
 E o amor começou a doer. Na ausência da energia do grande Sol, a Lua voltava a ser aquela coisinha insignificante, medíocre, mergulhada nas trevas. Apenas mais uma em um milhão, apenas esperando e ansiando a hora de rever seu amor platônico na esperança de que este um dia pudesse envolvê-la com seu calor por completo.
 E sabe de uma coisa?
 Você é o meu Sol. Meu grande e majestoso Sol, meu Astro Rei, é quem me torna uma pessoa iluminada e feliz. Eu sou sua Lua e aqui vou me manter em sua órbita até que esse amor se esgote ou, quem sabe, você me aceite ao seu lado e assim possamos ter nosso eterno eclipse.

Pra Sempre

 
Entrei silenciosamente no meu antigo escritório. O lugar estava iluminado pelos raios serenos do sol que se punha naquela tarde de outono. O tom laranjado da claridade que invadia o cômodo se combinava perfeitamente com os móveis de madeira envernizada que compunham o meu antigo local de trabalho, onde escrevi meus melhores romances.
 Aproximei-me da estante que acomodava minha coleção de livros, todos intocados, exatamente como eu havia os deixado. Era como se eu pudesse sentir o cheiro das páginas empoeiradas e mofadas. Deslizei a ponta do indicador pelos volumes, parando apenas quando meus olhos encontraram um nome específico. "Sonhos de Uma Noite de Verão". De relance, uma lembrança me atingiu rápida e certeira como uma flecha.
 Ela havia me dado aquele livro em nosso primeiro aniversário de casamento, ao qual eu retribuí com um romântico jantar em um fino restaurante, o seu preferido, no centro da cidade. Estávamos tão felizes naquela noite, tão plenos e realizados...
 A lembrança daquela noite em especial desencadeou uma torrente de outras mais de nossa longa vida juntos. O primeiro olhar, o primeiro encontro, o primeiro beijo, o pedido de namoro, os dois anos de noivado e em seguida os sete anos de casamento que terminaram tragicamente em um acidente de carro fatídico por culpa de um outro motorista embriagado.
 Todos os sonhos perdidos porque um bêbado atravessa o sinal vermelho em alta velocidade, batendo em nosso carro e provocando o maior desastre de nossas vidas e, consequentemente, uma morte.
 Me virei para minha escrivaninha de mogno buscando um porta-retratos. Ainda estava lá. Na foto, um casal jovem e feliz. Eu e ela, em nossa última viajem juntos. Ela sorria, com os olhos fechados enquanto eu depositava um beijo em sua bochecha. Não pude deixar de sorrir ao ver a fotografia. Seus lábios rosados curvados graciosamente, o rosto levemente inclinado para frente, uma pequena mecha de cabelo loiro caída em frente ao rosto. Eu estava com o cabelo um tanto quanto comprido e a barba por fazer. Ela sempre falou que gostava quando eu a deixava assim.
 Ah, eu amaldiçoava o destino pelo que houve, por cravar uma faca em nossa felicidade. Não entendo porque as coisas tiveram de terminar assim. Uma vida toda ao lado de um amor verdadeiro terminada em morte, tragédia, perda, solidão. Porque o anjo da minha vida me foi afastado de modo tão cruel?
 Fui desperto de meus pensamentos pelo som da porta do apartamento se abrindo e fechando em seguida. Saí então do escritório e passei pelo corredor, chegando na sala de estar, pude vê-la. Estava sentada no sofá com a cabeça apoiada nas mãos e o corpo inclinado. 
 Minha doce esposa.
 Mesmo que ela olhasse para onde eu estava, não me veria, uma vez que meu corpo não estava ali naquele apartamento, e sim apodrecendo em baixo de sete palmos de terra, no cemitério. Minha alma, porém, por alguma razão, se manteve presa àquele local onde vivemos tanto tempo juntos, de onde eu não conseguia sair.
 - Meu amor... - falei enquanto me sentava ao lado dela no sofá. Ela, porém, nem sequer imaginava que eu estava por perto o tempo todo após o acidente.
 Ouvi ela suspirar dolorosamente, seus olhos se encheram de lágrimas e ela desabou em prantos. Haviam se passado quatro meses desde minha morte e ela ainda chorava dia sim dia não. Era realmente cruel vê-la daquele modo sem poder confortá-la.
 - Porque, Deus? Por quê? - ela dizia em meio aos soluços. 
 Eu me faço a mesma pergunta todos os dias. E embora para ela eu já esteja morto e enterrado, embora para ela nossa vida juntos tenha acabado, eu sei que a dela deve continuar. E sendo assim, eu continuarei a protegendo, a vigiando e olhando por ela pelo tempo que me for permitido. Vou quebrar os votos que fizemos em nosso casamento de "até que a morte nos separe" e vou estar ao lado dela, até o dia em que ela virá a se unir a mim novamente.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Velhos Amigos

E lá vem eles de novo, e de novo

Assim como vem todos os dias, todas as noites
Sempre!
Ouço seus passos suaves pelo corredor
Abro os olhos com o barulho da porta se abrindo
É quando eles vem até minha cama
Pelo chão, pelo teto, nas paredes!
E por mais que eu feche os olhos e diga a mim mesma
Que não há ninguém ali, que nada disso é real
As mãos em meu tornozelo, em meu pulso, meu pescoço
As mãos frias de unhas pontudas
Elas continuam ali, apertando, cada vez mais
Minha boca se abre em uma tentativa de pedir ajuda
Mas dela não parte som algum
O único barulho no quarto é o dos choros
Os choros deles, sim, eles sempre choram
E com o tempo eu aprendi
Com o tempo eu vi que eles precisam de mim
E assim eu passei a precisar deles também
Passei a ter com quem conversar
Não é legal ficar sozinha
Mas eles estão sempre por perto agora, eles sempre vão estar
Agora eles já não choram mais, nós rimos juntos
E posso ouvir suas vozes me dizendo o que fazer
E como fazer
E nós todos rimos juntos
Porque eles precisam de mim, tanto quanto eu preciso deles
Eu gosto da companhia deles
Gosto de senti-los por perto
Gosto de sentir suas mãos geladas de unhas pontudas
em meus ombros enquanto escrevo isso.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cansada

Cansada de futilidade.
Cansada de falsidade.
Cansada de hipocrisia.
Cansada de abraços, sorrisos e olhares falsos.
Cansada de nutrir sentimentos quando estes não são recíprocos.
Cansada de decepções.
Cansada de ter o coração destroçado.
Cansada de fazer o certo e, em troca, receber apenas mais frustrações.
Cansada de reviravoltas.
Cansada de ver músculos e curvas sendo mais relevantes que o conteúdo.
Cansada de não saber pra onde ir.
Cansada de noites em claro chorando.
Cansada de ir do céu ao fundo do poço.
Cansada de está solitária no meio de tantas pessoas.
Cansada de ver tudo caindo sem poder segurar.
Cansada de estar lá pra quem nunca está aqui.
Cansada da vida.
Cansada de estar cansada...