Entrei silenciosamente no meu antigo escritório. O lugar estava iluminado pelos raios serenos do sol que se punha naquela tarde de outono. O tom laranjado da claridade que invadia o cômodo se combinava perfeitamente com os móveis de madeira envernizada que compunham o meu antigo local de trabalho, onde escrevi meus melhores romances.
Aproximei-me da estante que acomodava minha coleção de livros, todos intocados, exatamente como eu havia os deixado. Era como se eu pudesse sentir o cheiro das páginas empoeiradas e mofadas. Deslizei a ponta do indicador pelos volumes, parando apenas quando meus olhos encontraram um nome específico. "Sonhos de Uma Noite de Verão". De relance, uma lembrança me atingiu rápida e certeira como uma flecha.
Ela havia me dado aquele livro em nosso primeiro aniversário de casamento, ao qual eu retribuí com um romântico jantar em um fino restaurante, o seu preferido, no centro da cidade. Estávamos tão felizes naquela noite, tão plenos e realizados...
A lembrança daquela noite em especial desencadeou uma torrente de outras mais de nossa longa vida juntos. O primeiro olhar, o primeiro encontro, o primeiro beijo, o pedido de namoro, os dois anos de noivado e em seguida os sete anos de casamento que terminaram tragicamente em um acidente de carro fatídico por culpa de um outro motorista embriagado.
Todos os sonhos perdidos porque um bêbado atravessa o sinal vermelho em alta velocidade, batendo em nosso carro e provocando o maior desastre de nossas vidas e, consequentemente, uma morte.
Me virei para minha escrivaninha de mogno buscando um porta-retratos. Ainda estava lá. Na foto, um casal jovem e feliz. Eu e ela, em nossa última viajem juntos. Ela sorria, com os olhos fechados enquanto eu depositava um beijo em sua bochecha. Não pude deixar de sorrir ao ver a fotografia. Seus lábios rosados curvados graciosamente, o rosto levemente inclinado para frente, uma pequena mecha de cabelo loiro caída em frente ao rosto. Eu estava com o cabelo um tanto quanto comprido e a barba por fazer. Ela sempre falou que gostava quando eu a deixava assim.
Ah, eu amaldiçoava o destino pelo que houve, por cravar uma faca em nossa felicidade. Não entendo porque as coisas tiveram de terminar assim. Uma vida toda ao lado de um amor verdadeiro terminada em morte, tragédia, perda, solidão. Porque o anjo da minha vida me foi afastado de modo tão cruel?
Fui desperto de meus pensamentos pelo som da porta do apartamento se abrindo e fechando
Minha doce esposa.
Mesmo que ela olhasse para onde eu estava, não me veria, uma vez que meu corpo não estava ali naquele apartamento, e sim apodrecendo em baixo de sete palmos de terra, no cemitério. Minha alma, porém, por alguma razão, se manteve presa àquele local onde vivemos tanto tempo juntos, de onde eu não conseguia sair.
- Meu amor... - falei enquanto me sentava ao lado dela no sofá. Ela, porém, nem sequer imaginava que eu estava por perto o tempo todo após o acidente.
Ouvi ela suspirar dolorosamente, seus olhos se encheram de lágrimas e ela desabou
- Porque, Deus? Por quê? - ela dizia em meio aos soluços.
Eu me faço a mesma pergunta todos os dias. E embora para ela eu já esteja morto e enterrado, embora para ela nossa vida juntos tenha acabado, eu sei que a dela deve continuar. E sendo assim, eu continuarei a protegendo, a vigiando e olhando por ela pelo tempo que me for permitido. Vou quebrar os votos que fizemos em nosso casamento de "até que a morte nos separe" e vou estar ao lado dela, até o dia em que ela virá a se unir a mim novamente.
Esse me fez chorar...
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