Certa vez, a Lua apaixonou-se pelo Sol.
Dentre todos os corpos celestes no universo, para ela, nenhum possuía um brilho
tão resplandecente e uma energia e luz tão ofuscantes.
A pequena Lua, do contrário, não
possuía sua luz própria. Costumava viver solitária na escuridão, apenas
alimentando seus próprios fantasmas do passado, implorando em seus pensamentos
que alguém a salvasse de tais.
E então o amor floresceu nela.
Diante do brilho do majestoso Sol, ela também parecia iluminar-se. O Sol, com
seu calor aconchegante, envolvendo facilmente todos á sua órbita. A Lua,
refletindo tal luminosidade em forma de uma tez pálida, emitindo fracos raios
brancos, puros e serenos condizentes com seu amor pelo astro rei.
Porém no amor, nem tudo são flores.
O Sol estava sempre centrado em si
próprio, sempre no mesmo local, parecendo sequer notar a existência da pequena
Lua. Parecia inalcançável para ela. Parecia muita ousadia da parte da Lua
desejar algo tão magnífico quanto o Sol.
E o amor começou a doer. Na ausência
da energia do grande Sol, a Lua voltava a ser aquela coisinha insignificante,
medíocre, mergulhada nas trevas. Apenas mais uma em um milhão, apenas esperando
e ansiando a hora de rever seu amor platônico na esperança de que este um dia
pudesse envolvê-la com seu calor por completo.
E sabe de uma coisa?
Você é o meu Sol. Meu grande e
majestoso Sol, meu Astro Rei, é quem me torna uma pessoa iluminada e feliz. Eu
sou sua Lua e aqui vou me manter em sua órbita até que esse amor se esgote ou,
quem sabe, você me aceite ao seu lado e assim possamos ter nosso eterno eclipse.
Entrei silenciosamente no meu antigo
escritório. O lugar estava iluminado pelos raios serenos do sol que se punha
naquela tarde de outono. O tom laranjado da claridade que invadia o cômodo se
combinava perfeitamente com os móveis de madeira envernizada que compunham o
meu antigo local de trabalho, onde escrevi meus melhores romances.
Aproximei-me da estante que
acomodava minha coleção de livros, todos intocados, exatamente como eu havia os
deixado. Era como se eu pudesse sentir o cheiro das páginas empoeiradas e
mofadas. Deslizei a ponta do indicador pelos volumes, parando apenas quando
meus olhos encontraram um nome específico. "Sonhos de Uma Noite de
Verão". De relance, uma lembrança me atingiu rápida e certeira como uma
flecha.
Ela havia me dado aquele livro em
nosso primeiro aniversário de casamento, ao qual eu retribuí com um romântico
jantar em um fino restaurante, o seu preferido, no centro da cidade. Estávamos
tão felizes naquela noite, tão plenos e realizados...
A lembrança daquela noite em
especial desencadeou uma torrente de outras mais de nossa longa vida juntos. O
primeiro olhar, o primeiro encontro, o primeiro beijo, o pedido de namoro, os dois
anos de noivado e em seguida os sete anos de casamento que terminaram tragicamente
em um acidente de carro fatídico por culpa de um outro motorista embriagado.
Todos os sonhos perdidos porque um
bêbado atravessa o sinal vermelho em alta velocidade, batendo em nosso carro e
provocando o maior desastre de nossas vidas e, consequentemente, uma morte.
Me virei para minha escrivaninha de mogno
buscando um porta-retratos. Ainda estava lá. Na foto, um casal jovem e feliz.
Eu e ela, em nossa última viajem juntos. Ela sorria, com os olhos fechados
enquanto eu depositava um beijo em sua bochecha. Não pude deixar de sorrir ao
ver a fotografia. Seus lábios rosados curvados graciosamente, o rosto levemente
inclinado para frente, uma pequena mecha de cabelo loiro caída em frente ao
rosto. Eu estava com o cabelo um tanto quanto comprido e a barba por fazer. Ela
sempre falou que gostava quando eu a deixava assim.
Ah, eu amaldiçoava o destino pelo que
houve, por cravar uma faca em nossa felicidade. Não entendo porque as coisas
tiveram de terminar assim. Uma vida toda ao lado de um amor verdadeiro
terminada em morte, tragédia, perda, solidão. Porque o anjo da minha vida me
foi afastado de modo tão cruel?
Fui desperto de meus pensamentos
pelo som da porta do apartamento se abrindo e fechando em seguida. Saí então do
escritório e passei pelo corredor, chegando na sala de estar, pude vê-la.
Estava sentada no sofá com a cabeça apoiada nas mãos e o corpo inclinado.
Minha doce esposa.
Mesmo que ela olhasse para onde eu
estava, não me veria, uma vez que meu corpo não estava ali naquele apartamento,
e sim apodrecendo em baixo de sete palmos de terra, no cemitério. Minha
alma, porém, por alguma razão, se manteve presa àquele local onde vivemos tanto
tempo juntos, de onde eu não conseguia sair.
- Meu amor... - falei enquanto me
sentava ao lado dela no sofá. Ela, porém, nem sequer imaginava que eu estava
por perto o tempo todo após o acidente.
Ouvi ela suspirar dolorosamente,
seus olhos se encheram de lágrimas e ela desabou em prantos. Haviam se
passado quatro meses desde minha morte e ela ainda chorava dia sim dia não. Era
realmente cruel vê-la daquele modo sem poder confortá-la.
- Porque, Deus? Por quê? - ela dizia
em meio aos soluços.
Eu me faço a mesma pergunta todos os
dias. E embora para ela eu já esteja morto e enterrado, embora para ela nossa
vida juntos tenha acabado, eu sei que a dela deve continuar. E sendo assim, eu
continuarei a protegendo, a vigiando e olhando por ela pelo tempo que me for
permitido. Vou quebrar os votos que fizemos em nosso casamento de "até que
a morte nos separe" e vou estar ao lado dela, até o dia em que ela virá a
se unir a mim novamente.